3 orçamentos para quando a vida te prega uma rasteira
Olá, como tens passado?
Estou a entrar numa nova fase da minha vida: o desemprego.
Desemprego - esta palavra traz sentimentos de falhanço e de inadequação. Talvez lhe possa chamar de fase de “crescimento pessoal”.
A “auto-reflexão dos 30”.
A “viagem às profundezas do inconsciente”.
A “descoberta do ego interior”.
O “revirar das entranhas”.
O “alinhamento dos chacras”.
(dizem que um título chamativo é meio caminho andado para ter leitores, por isso escolhe o que mais gostas).
Como é que está a tua vida, agora, que não há um salário?
Quando percebi o que iria acontecer, tive de colocar-me várias questões. A principal? Como é que vou viver nos próximos meses.
É necessário uma reorganização da vida - da sala, e da despensa, e dos livros da estante.
Mesmo que recebas subsídio de desemprego, ele geralmente não é o teu último salário total. Portanto é mesmo necessário fazer novas contas e reorganizar o orçamento. É simples, mas doloroso e promove milagres.
A vida sem um salário a cair todos os meses torna este exercício um must-have.
O orçamento é composto por dois grandes movimentos: o dinheiro que entra e o dinheiro que sai. Se não há dinheiro a entrar, é importante então olhar para o dinheiro que sai.
É fácil olhar para as despesas, certo? Basta pegar no extrato mensal e fazer contas.
Mas este exercício pareceu-me irrealista, porque os últimos gastos são de uma realidade em que cai sempre um salário. Será que gastas mais, porque sabes de aí uns dias vais receber mais?
O que é realmente necessário para viver? A resposta veio-me através de 3 possíveis orçamentos: o orçamento selva, o orçamento moderno e o orçamento bacano.
Começamos com o orçamento selva
Inspirado na série “Survivor”, este orçamento é mesmo de sobrevivência. É o indispensável para viver. A famosa Pirâmide de Maslow descreve uma hierarquia das necessidades humanas em cinco níveis: fisiológicas, segurança, sociais, estima e auto-realização.
Neste orçamento, inclui apenas as primeiras duas necessidades: fisiológicas e segurança. Alimentação, sede, sono, respiração. Tradução: casa, condomínio, comida, água, eletricidade. Ou, se for o caso, deves também incluir comprimidos essenciais que sem os quais não consegues viver.
Hmmm podes-te estar a perguntar, o carro e a gasolina fazem sentido? No meu caso é “possível” viver sem carro. Tenho um mini mercado a 1 minuto a pé da minha casa, portanto conseguiria abastecer-me de comida e de água sem problemas.
Qual é o valor que te dá? A renda pode ser algo mais caro, vamos apontar que são 700 euros. Para sobreviveres 12 meses, precisas então de ter guardado…cerca de 8500€.
Mas e a saúde e os hobbies? Neste cenário faço as contas de que estás saudável ou que se precisares de um Ben-u-ron, é possível comprá-lo ou já tens em casa. Já os hobbies são importantes do ponto de vista social, é certo, mas é possível ter hobbies sem gastar muito dinheiro.
O orçamento da vida moderna
O orçamento anterior é o mínimo do mínimo, e não inclui algumas coisas modernas, como transportes ou Wi-Fi e telemóvel.
Aos tais 700€ de que precisas, podes adicionar o teu pacote de telecomunicações, o teu passe de transporte mensal ou um depósito de gasolina. Claramente percebes que o orçamento vai aumentar, no entanto, é o passo seguinte: passamos do SOBREVIVER para o VIVER com os dois pés assentes na terra.
Estas parcelas já podem contemplar o ires ter com amigos gastando o mínimo possível.
Se queres viver desta forma, o orçamento sobe para 1000€ mensais. Para doze meses precisas de guardar pelo menos 12.000€ guardados.
E se quiser ter um orçamento bacano?
Ainda há uma outra hipótese - o orçamento bacano (ou dos ricos).
Para aqueles que usam este tempo livre para organizarem o seu orçamento e também dedicar-se a projeto que ainda não tinham pensado. Sim, porque tempo é dinheiro e se eu tenho muito tempo livre, vai haver dinheiro envolvido.
Este é um orçamento mais tranquilo, que te permite pagar as contas e também investir em algumas áreas. Este é aquele orçamento à vontade (e até à vontadinha, dependendo do apetite). Para efeitos de exercício, usarei 1500€ mês, o que se traduz num fundo a 12 meses de 18.000€ (ouch!).
As descobertas desde exercício
Há três pontos essenciais neste exercício: o valor depende do que tu consideras que seja essencial no teu estilo de vida; o tempo que estás a pensar ficar parado; e se divides despesas.
Se colocares os três orçamentos em perspectiva, vês que eles variam bastante:
Orçamento 1: 700€ por mês.
Orçamento 2: 1.000€ por mês.
Orçamento 3: 1.500€ por mês.
O orçamento 1 é inegociável, os outros dois já depende das preferências das pessoas.
Existem necessidades que na era moderna já consideramos básicas, como o Wi-Fi. No entanto, o exercício faz-te pensar em cada despesa, alínea a alínea e perceber o que podes dispensar temporariamente. Podes reduzir a velocidade do teu Wi-Fi para pagar menos e a que custo?
Precisas mesmo de Netflix? Até podes precisar, mas não tens contrato de fidelização. Podes cancelar e quando te apetecer voltar, subscrever de novo.
Estás a pagar o mínimo de eletricidade possível? Usa o tempo para renegociar e baixar a tua prestação.
Estas ações levam-te numa jornada para realmente entenderes qual o nível de conforto que queres (e podes pagar) na tua vida.
O segundo ponto é o tempo em que queres ficar parado. Se não queres de todo perder tempo, então arranjar um trabalho pode demorar apenas alguns meses. Vais usar algum do fundo de emergência, mas não muito. Quando regressares ao trabalho, podes desenhar um plano para voltar a encher o fundo de emergência.
E terceiro, é importante perceber se divides as despesas. Para quem divide a casa, o carro, e a comida, vai gastar menos. Se estás em casa dos teus pais, podes baixar significativamente a despesa. Se estás por tua conta, digo-te que é mesmo essencial pensar num fundo de emergência.
E agora que estou nesta situação, o que posso fazer?
Estas situações em que não tens um rendimento e tens um fundo de emergência finito pode trazer velhas ansiedades financeiras ao de cima. Como é que vou cumprir isto? Como é que vou viver? E se num mês aparece uma despesa maluca? O que é que me está a faltar?
Sei que é uma situação assustador, o pior acontece. Por isso é que focar na prevenção é essencial - fazer um fundo de emergência pode parecer estranho, mas ele está a ser usado exactamente nesta situação. Se não tivesse começado há anos atrás, estaria numa situação muito pior.
Numa situação em que não existe rendimento, a primeira coisa que deves fazer é planear. Planear os próximos meses em despesas. Pois o stress vai aparecer, e se tiveres um plano podes lidar melhor com ele.
O segundo é arranjar rendimento. Podes fazer trabalhos de freelancing? Podes vender artigos que já não usas na Vinted? Como está a tua procura de emprego?
Deves montar uma estratégia para encontrar algo alinhado com as tuas competências e não te atirares à primeira coisa que aparece por desespero (possivelmente o desespero vai aparecer, mas pelo menos tentaste à primeira).
Por isso lanço-te o desafio: se daqui a uma semana ficasses sem trabalho, quanto tempo passaria até ficares sem nada? Como irias reorganizar as tuas despesas?
Os maus momentos não são uma questão de “se acontecem”. É “quando acontecem”. Acredita que começares a pensar no tema, nem que seja uma vez, pode-te dar mais consciência da tua situação financeira e talvez incentivar-te a fazer algo diferente. Fica a reflexão para este final de ano, quiçá…




Olá Rita, bom post! E lamento a situação … mas, como dizes, é sempre uma boa oportunidade de desenvolvimento pessoal! E a importância do fundo de emergência é total, mesmo! Trabalhando por conta própria é o meu melhor parceiro desde sempre e agora estando mais em standby em re-estruturação realmente dá-me muito descanso tê-lo e usá-lo (embora me custe porque na minha cabeça o fundo não “devia” ser usado 🥹, o que não faz sentido nenhum, eu sei! 😭) e ando entre o survivor e a vida moderna em termos de orçamento 😅… e de momento também a trabalhar a mentalidade relativamente ao dinheiro que, seja em que situação for, acaba por limitar muito as nossas atitudes quanto ao que se gasta, às possibilidades do que se pode ganhar… tema bem complexo! Que corra tudo bem, Rita! 🤍